sexta-feira, 16 de outubro de 2009

TRÊS PONTOS...

Uma sala... Duas vidas... Qual o caminho...?



Duas poltronas. Uma mulher assiste a platéia, como se visse uma TV. Luz em penumbra. Ela está sentada na poltrona da direita. Entra um homem. Pára de costas para a platéia, na direita baixa do palco. Fita-a. Ela percebe a presença, mas se mantém indiferente. Longo silêncio. Ele se aproxima dela. Passa por trás da poltrona dela e senta-se na poltrona da esquerda. Há um som de TV fora de sintonia. Ele a observa com olhar de julgamento. Hesita em falar. Ela estremece. Silêncio. Ele está visivelmente inquieto e abalado. Ela continua estática. Assistem a platéia. Ele toma fôlego, mas não fala. Ela estremece. Ele pergunta. Ela hesita num silêncio e desconversa. Ele pega um controle que está na poltrona dela e aponta para a platéia. Aumenta a intensidade da luz, o som da TV cessa. Ele repete a pergunta. Ela desconversa novamente, não consegue olhá-lo nos olhos. Novamente a pergunta. Ele a segura em uma das mãos. Ela hesita e responde. Longo silêncio. Ele busca os olhos dela, ela escapa. Ele segura a outra mão com violência e faz uma nova pergunta. Ela responde com segurança. Ele pergunta sem acreditar no que ouviu. Eles levantam-se sem largar as mãos, que estão cruzadas. Ela responde didaticamente. Quer soltar-se. Faz uma pergunta. Ele a prende e comenta a pergunta dela. Vai para cima dela. Ela tenta fugir. Ele não permite. Ela vai para cima dele. Ele a enrosca. Ela se desvencilha. Os dois se enfrentam em forças opostas. Ele a repulsa e solta as mãos dela. Ela segura firme. Ele tenta soltar-se. Ela agarra as mãos com firmeza. Encara-o. Ela o repulsa e solta as mãos dele. Ele segura firme. Ela tenta soltar-se. Ele agarra as mãos com firmeza. Encara-a. Ele a atrai para junto do seu corpo. Anda para cima dela. Ela vai caindo para trás e passa por sobre as pernas dele. Soltam as mãos. Olham-se. Estão sentados no chão. Ele avança para ela. Ela foge de costas e sentada. Encaram-se. Repetem o movimento até que ele busca as mãos dela e as segura firmemente, junto ao peito. Ela se esforça para sair. Olham-se. Silêncio. Aproximam os rostos quase num beijo. Ela abandona a força das mãos. Ele tenta mantê-las firme. Silêncio. Eles olham as mãos e, lentamente, ele deposita as mãos dela sobre as pernas dela. Ela se levanta e sai. Ele hesita em ir atrás. Ela pára, olha-o e sai decidida. Ele, sentado, volta-se para a platéia e fecha-se. Ela sai pela esquerda, passa por trás das poltronas, pára na direita alta do palco. Olha-o e aproxima-se. Ele percebe. Ela pega o controle na poltrona, senta-se por trás dele e põe o controle no chão. Ele olha-a nos olhos e põe a sua mão sobre a perna dela. Ela segura a mão dele, suavemente. Ele desmorona no colo dela. Abraçam-se forte. Ele chora de alegria. Percebe o controle. Percebe a platéia. Pega o controle. Olha-o. Olha para a platéia. Olha para ela. Oferece o controle. Olham para o controle. Ela aceita. Olham para a platéia e ela aperta um botão do controle.

- BLACK –


(Texto: Joedson Silva. Processo criativo: Joedson Silva, Jon e Lícia Dantas)

OLHOS À DENTRO

A distância é um rio enorme
Sem ponte e sem canoa
E eu sou um homem só!
Eu só sou!
Eu sou só...
Um homem!
Só um!


Eu sempre pensei estar
Em uma das margens
De um rio...
Vendo-o passar!
Mas descubro que não.
Eu também sou esse rio!

Olho com um olhar
Que rasga os seus olhos,
Mas não vejo os seus sonhos
Penso que sonho só...
Um sonho...
Só!

E o que é um sonho
Que nunca será verdade?
Um sonho que só você vê?
Não é nada!
Eu sou esse sonho!
Então...
Eu sou nada!

Joedson Silva
Salvador e Petrolina, entre agosto de 2006 e agosto de 2007. Partindo das palavras de uma improvisação de cena do colega ator Camilo Fróes.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Resposta ao Silêncio

Mais que um romanesco andante,
Velejo em águas tempestivas
Onde o vento me manda. Sigo.
Não há volta para esse quimérico,
O caminho mostra-se a cada légua.
Enxergo até onde chega a luz.

Não obstante, firme passo em vida minha.
Vendo que mais distante estão os supostos
Que, por aspirarem-se briosos, caem
A cada nova dita pomposa e criativa,
Inexatos e torpes, envoltos
Em suas partícula(s)ridades.